“Eu estive no inferno”

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Quando aterramos em Skopje (Macedónia), no dia 5 de dezembro, tínhamos à nossa espera aquele que foi o nosso anjo da guarda, no campo de transição de Gevgelija. Kemal recebeu-nos com a seguinte frase: “Welcome to the hell”. Dias mais tarde ouviria da sua boca o seguinte desabafo: “It’s hard to be me”. Kemal é um anjo da guarda daquele campo. Bósnio, deixou a família, emprego e está a trabalhar no campo, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Como ele no campo existem mais cinco, seis pessoas no máximo.

Pensava que ia mais do que preparada para aquilo que iria encontrar. Afinal, a larga experiência que tinha a trabalhar com populações desfavorecidas, só me podia dar condições mais do que suficientes para ir nesta missão. Antes de ir pesquisei muito, li muito. Quando lá cheguei de imediato percebi que não sabia nada.

A falta de humanismo: todas as pessoas que trabalham no campo, incluindo os funcionários das ONG, são pagas. É um emprego como outro qualquer. Não há humanidade associada ao que estão ali a fazer e veem os refugiados como o “inimigo” ou um “terrorista”. Quem? Todos, desde funcionários das ONG aos militares e polícias. Com este tipo de pensamento, imaginam vocês como são tratados?

A vontade de chorar é constante, um misto de raiva por ver tanta corrupção à nossa volta, tanta falta de humanismo, e muita tristeza aliada à lucidez de que pouco mais podes fazer. Olhas à tua volta e vês imensas crianças. Limpam-se as lágrimas porque, entretanto, já tens à tua frente pessoas a pedirem-te sapatos, meias secas…. E o choro ou fica para mais tarde ou choras às escondidas, para lavar a alma e seguir em frente.

 

É vergonhoso e revoltante serem os voluntários a dar o exemplo de como as ONG se deviam comportar. É vergonhoso e revoltante serem os voluntários a dar o exemplo de como os governos deviam e podiam agir. Não somos heróis, mas de uma coisa íamos munidos, “humanismo”. E isso fez toda a diferença, a preocupação que tínhamos de percorrer o campo de cima a baixo. Éramos os únicos a fazê-lo, dia e noite, a falar com as pessoas, dar informação de coisas básicas, como por exemplo a existência de uma sala no campo para mães e crianças, quando o comboio tardava em chegar e a espera era desesperante, porque não podiam ir para a fila guardar vez, pois poderiam ser surpreendidos com uma bastonada dos polícias.

A Unicef tinha duas tendas, mas só uma estava aberta, a outra ficou fechada porque o aquecimento avariou. Na Cruz Vermelha quase era necessário mendigar por um simples comprimido para uma dor de cabeça, um penso rápido, ou até mesmo um bocado de água quente para um biberão de leite.

Se os funcionários estão cansados e em burnout, o que acredito que seja possível, as organizações responsáveis que substituam estas pessoas, para minorar o seu desgaste e para que esse mesmo desgaste não caia em cima de quem mais precisa deles.

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A espera pelo comboio era desesperante. Nunca se sabia a que horas chegava. Só os militares e a polícia tinham essa informação, embora existisse no campo um quadro em que supostamente estavam escritos os horários de saída. Era para inglês ver, pois contam-se pelos dedos das mãos os dias em que aqueles horários de partidas de comboios eram cumpridos. Podiam partir de 8 em 8 horas, como de 12 em 12, ou até 24 horas. Os bilhetes custam 25 euros por adulto (para um “local”, o valor é aproximadamente 5 euros) e os bilhetes só podem ser comprados no momento de embarque, num guichê pequeno junto aos portões de entrada no comboio.

Os comboios vão sempre sobrelotados (chegam a transportar mil pessoas, quando a capacidade é entre 600 as 800 pessoas, dependendo do número de carruagens) e não esperam. Esteja a família toda ou não, o comboio arranca. E é assim que se vão desmembrando as famílias ao longo deste corredor de refugiados. Há centenas de famílias que procuram filhos, pais, irmãos perdidos algures nesta Europa.

Houve uma noite em que não venderam mais bilhetes, porque o papel acabou, e houve pessoas que não entraram naquele comboio porque o papel dos bilhetes tinha acabado! Poderia ser cómico caso isto não se passasse num campo de transição, mas chega a ser ridículo.

À noite é ainda mais duro, ninguém dorme. E vimos de tudo: crianças doentes, bebés com birras de sono, outros tantos com fome (muitas vezes não havia água quente para um simples biberão de leite), idosos, jovens, pessoas em cadeiras de roda, mulheres grávidas. À noite, são as fogueiras na rua que lhes aquecem o corpo, porque a alma já dificilmente aquecerá. As esperas pelo comboio são feitas numa das duas tendas gigantes que estavam perto da linha do comboio. Estas tendas têm capacidade para 250 pessoas, com bancos corridos de madeira e chão contraplacado. E enquanto se espera pelo comboio, não há condições mínimas de dignidade e calor humano.

A comida (um lanche oferecido à vez entre várias organizações, sandes, biscoitos ou pão com sumo) é dada à entrada do campo. Lá dentro, uma vez por dia a Caritas distribui copos com sopa de pacote. E de vez em quando, quando estão bem-dispostos, há chá.
Isto até seria menos grave se se tratasse de um centro de transição, como oficialmente as autoridades chamam a este campo de refugiados. Mas quando se espera mais de 12 horas ou até 24 por um comboio, pela noite dentro, embrulhados numa manta “caridosamente” dada pela Cruz Vermelha (quando as há), o campo já não é bem de transição.

Quando o campo está cheio, o “excedente”, diga-se “as pessoas”, são enfiadas noutras tendas provisórias, sem bancos corridos, sem luz, nem aquecimento, com chão de gravilha. Há crianças a dormir ao relento, sem que ninguém se preocupe em ir buscá-las e levá-las para um local mais abrigado. A ideia com que venho e que mantenho é que estive dentro de um campo de concentração em pleno séc. XXI (sem câmaras de gás), mas no qual a tortura psicológica é feita pela incerteza de quando chega o próximo comboio, e a física pelo frio e fome a que são sujeitos. E de vez em quando a força policial faz-se sentir através de cacetadas que caem indiscriminadamente sobre quem se atravessa à frente dos militares em alturas de grande tensão no campo,  como foi a noite que lá vivemos da greve dos taxistas, os abutres que lucram com a desgraça alheia, que inflacionam o preço das viagens. Bloquearam a linha do comboio, por não lhes enviarem clientes refugiados a quem cobram 100 por viagem (25 cada pessoa).

Dentro do campo, havia militares e polícia que nada fizeram para acabar com aquela greve. Estranho no mínimo, e as pessoas naquele dia permaneceram 15 horas ali, sem as mínimas condições e quase deixadas à sua pouca sorte. Claro que os ânimos acabaram por se exaltar, claro que houve bastonada dentro de uma das tendas para conter os ânimos. Houve o cuidado de fechar a tenda, para que longe dos nossos olhares se pudesse conter uma multidão em fúria. Passado algum tempo, vimos passar macas da Cruz Vermelha, mais uma vez tinham-se excedido nas bastonadas…

O Dia Internacional dos Direitos Humanos, que também por lá foi celebrado, levou ao campo jornalistas polacos e holandeses, bem como alguns altos representantes institucionais da Caritas, Cruz Vermelha e Nações Unidas. Um dos representantes em destaque foi Marc Dullaert. O protesto dos taxistas, no dia anterior, surtiu efeito e pela primeira vez em várias semanas foi possível aos refugiados seguirem viagem de táxi e autocarro, quando entraram os jornalistas e as individualidades no campo

Às 10 da manhã desse dia vivia-se uma calma fora do normal e uma organização impecável: funcionários de todas as organizações a andarem campo abaixo, campo acima, houve distribuição de comida várias vezes durante o dia, até os militares e a polícia estavam simpáticos e atenciosos, a ajudarem calmamente na organização de filas para os comboios. Nesse dia saíram do campo, até as 16 horas, três comboios. E pela primeira vez vi aquecimentos dentro de algumas tendas, pela primeira vez vi todas as tendas abertas e a funcionarem, vi técnicos a interpelarem as pessoas, até vi senhores importantes a brincarem com as crianças.

Pensava eu que esta hipocrisia não se via nestas situações e nestes lugares, que por aqui era outra maneira e forma de pensar o outro e de trabalhar. Enganei-me.

Uma noite andava com a Ângela a distribuir luvas e gorros, e fomos abordadas por dois polícias, da seguinte forma: “Portugalia, we want  gloves for big child”. Entredentes e sempre de sorrisos nos lábios, troquei com a Ângela “mimos” em português, sobre aqueles indivíduos, ao mesmo tempo que procurávamos dentro do saco as tais “big gloves” e respetivos gorros. Quando os entregámos, um deles, depois de calçar as luvas, levanta os braços e no meio de uma tenda cheia de pessoas que queriam descansar começa a cantar “I feel good”. Viram costas e lá foram continuar a sua ronda, todos contentes porque tinham mais uma vez obrigado os “portugalia” a darem-lhes coisas. Não dar nem se punha em questão, significava comprar uma guerra desnecessária e que poderia pôr em causa a nossa continuidade dentro do campo. Revolta muito grande com isto.

O exemplo mais gritante que tivemos desta troca de favores, foi mesmo a TV comprada e oferecida a alguém, como prova de agradecimento da sua bondade em nos ter deixado estar ali a trabalhar como voluntários. Uma TV foi o quanto tivemos que pagar para trabalhar e para poder entrar com as compras que fizemos na cidade, barato, se pensarmos no que de bom conseguimos fazer, e que foi muito, assim haja dinheiro para comprar as influências e o humor de quem ali detém o poder…

E pergunto eu, sabendo que a U. E. está a dar dinheiro a estes países para fazer face e ajudar nas despesas com os refugiados, e sabendo eu como funciona a fiscalização destes dinheiros em outras áreas, onde está a fiscalização e o controlo destes apoios que são transferidos? Como sabem os senhores que estão em Bruxelas se estes fundos estão a ser bem aplicados e bem geridos?

A falta de informação: nenhum dos refugiados que se cruzou connosco estava, por exemplo, a par das possibilidades de asilo nos outros países europeus que não a Alemanha. Muitos desconheciam que Portugal por exemplo os poderia receber, bem como Espanha, ou outros países que fazem parte da Europa. A Alemanha é-lhes dada como um “el dorado”.

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Levámos connosco mapas da Europa, com Portugal assinalado. Quando não sabiam falar inglês (o que era raro), dávamos-lhes para a mão um papel traduzido para árabe, onde explicávamos onde ficava Portugal e como tinham de fazer para pedirem asilo. A uma dada altura fomos avisados para não mostrarmos mais o mapa e o papel, pois se fossemos apanhados pela polícia ou militares poderíamos ser presos ou postos fora do campo sem poder trabalhar.

Valeu-nos ainda o nome de Cristiano Ronaldo ou até do Mourinho, para início de conversa e para lhes arrancar um sorriso. Ficámos a perceber que há muitos fãs na Síria, no Afeganistão.

A todos, os que nos foi possível, passámos a informação. São muitos os que vão pedir para serem recolocados em Portugal assim que chegarem ao local certo para o fazer e que querem iniciar uma nova vida.

E pergunto eu, por que é que o governo português não cria pontes aéreas da Grécia para Portugal, evitando assim que alguns milhares de pessoas façam a Rota dos Balcãs? Por que é que o governo português, não dá um passo à frente na sua ajuda e cria equipas para irem para o terreno trabalhar (na Grécia), fazer triagem das pessoas que querem pedir asilo no nosso país? Há voluntários dispostos a isso, e que podem ajudar funcionários do SEF por exemplo. Por que é que a Europa não cria viagens seguras a partir da Turquia, acabando com as travessias inseguras por mar?

Desengane-se quem alguma vez pensou que me senti ameaçada ou insegura junto dos refugiados (e estive algumas vezes sozinha). Pelo contrário, gratidão era aquilo que encontrava nos olhares. Gratidão, foi o que vi no olhar de um senhor, com os seus 60 e poucos anos, quando lhe estendi a mão para lhe dar um gorro e umas luvas ainda dentro da embalagem, e depois de lhe terem explicado em árabe que não tinha de pagar por elas. Nunca vou esquecer aquele olhar, o olhar alegre das crianças, a quem um simples frasco com bolas de sabão fazia esquecer por momentos as imagens da guerra, que estão marcadas e guardadas nas suas cabeças, os sorrisos arrancados com magias de sopro e quando lhes davam berlindes.

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Que sirva este meu depoimento para quem não está a fazer rigorosamente nada e ainda ganha à conta da miséria humana. Eu estive no inferno, e porque senti com todos os meus sentidos, não consigo esquecer, nem quero. Vou regressar em meados de março. Os meus três amigos do grupo regressam já dia 5 de fevereiro. Estamos com uma campanha de recolha de donativos em dinheiro para levar, “Dare to care”. Envolvam-se, ajudem-nos porque a diferença faz-se fazendo, porque nós estamos dispostos a continuar a mostrar como é que se faz a quem deveria fazer. A nós dói-nos o mundo e a eles também…

Ana Perpétuo Simões, de 43 anos, voluntária da Go Humanitarian-Grupo de Operações Humanitárias

Fotos: Voluntários da Caravana da Esperança

6 pensamentos em ““Eu estive no inferno”

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