“Mesmo depois de ter sido baleada, gostava de lá voltar”

Hamid foi alvejada quando tentava fugir da terra natal - Washington Post

A cicatriz nas costas de Baraa Hamid é do tamanho de uma moeda. Tem outra cicatriz no lado da frente, perto da clavícula, mas um pouco menor. É onde um cirurgião removeu uma bala.

No verão de 2012, ela e a família estavam a tentar fugir da sua terra natal, Alepo, na Síria, para escapar à guerra. Estava na parte de trás de uma carrinha de caixa aberta junto com a mãe, irmão, cunhada e os cinco filhos do casal.

A mãe, Shukriya Hamid, estava sentada ao lado dela quando foi atingida. Dizem que foi um atirador do governo sírio que estava a alvejar caros vindos de partes da cidade controladas por rebeldes.

“Nunca vi tanto sangue”, disse a mãe. Hamid lembra-se que não conseguia falar. Lembra-se também de recear que a sua família também tivesse sido alvejada. Correram para o hospital mais próximo e, depois da cirurgia, fugiram de Alepo para a aldeia da família, numa zona rural, para que Hamid pudesse recuperar.

Conseguiram deixar a Síria há uns meses atrás, com nada para além das suas roupas. Agora encontram-se entre milhares de refugiados que vivem na Turquia, a cerca de uma hora da fronteira. Vivem num bairro onde sírios e turcos pobres se misturam. Os homens sírios andam pelas ruas à procura de biscates, enquanto as mulheres turcas sentem-se em círculos e partem nozes para vender.

Hamid partilha um quarto com a mãe e outros seis membros da família. O irmão e a esposa dormem num segundo quarto. Estão ligados por um corredor, onde partilham um frigorífico e um pequeno fogão a gás.

Todos os dias, um homem de negócios turco do bairro deixa uma embalagem com cem pares de calças de ganga, de tecido fino e barato. Hamid e a mãe usam uma pequena tesoura para cortar e arranjar as imperfeições e, assim, conseguem calças em estado de serem vendidas.

Acabar cem pares de calças de ganga demora um dia inteiro. Por este serviço, pagam-lhe 2,35 euros. “É alguma coisa”, diz Hamid. “Pelo menos podemos comprar pão com ele.”

Ela raramente sai de casa, até porque não conhece ninguém e também não fala turco. Sente falta da casa e dos amigos de Alepo, sente falta das longas caminhadas à volta do campus da Universidade de Alepo. Teve de abandonar os estudos ainda antes de decidirem fugir, porque a família não podia pagar as propinas.

“Tinha o sonho de terminar os estudos, mas não consegui”, contou ela. “Adoraria estar na escola.” Agora, com 18 anos, Hamid está determinada em voltar, algum dia, para a Síria, mas sabe que pode demorar muitos anos. “Mesmo depois de ter sido baleada, gostava de lá voltar.”

Ainda lhe custa carregar algo pesado, e nos dias frios doí-lhe o braço e o ombro por causa do ferimento da bala. Ela e a mãe sentam-se por horas a remendar calças na pequena sala que agora define a sua vida.

Fonte: Washington Post

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