Ovar acolheu família síria trazida por portugueses da Áustria

André Gouveia / Global Imagens

Em Ovar, sentem-se abençoados pela “oportunidade de viver uma vida nova”, depois de mais de um ano a sobreviver numa cidade tomada pelo autoproclamado Estado Islâmico, no centro-Norte da Síria, Raqqa, o reduto dos jiadistas que nos últimos dias têm sido alvo de bombardeamentos estratégicos pelas aviações francesa e russa, na sequência dos atentados em Paris. A primeira família de refugiados sírios da leva dos que chegaram à Europa este ano instalou-se em Ovar há cinco dias e encontrou paz e “uma grande família”.

E nem os atentados de Paris parecem ensombrar a esperança reavida. Para trás, Ali Alkhamis, de 38 anos, e a mulher Nada Al Nadaf, de 28, deixaram irmãos e a mãe dela – com quem vão mantendo o contacto possível via internet – e muitas preocupações. Na Síria, perderam familiares e o pai de Nada foi sequestrado. Apesar do resgate pago, nunca foi entregue. Não sabem o que lhe terá sucedido.

Alfaiate de profissão, Ali tinha fechado a loja antes de abandonar o país com a mulher e as três pequenas filhas – Dima, Inas e Rimas, de nove, sete e quatro anos -, devido aos bombardeamentos constantes, em Raqqa. Quando a casa foi atingida, não viram outra solução senão fazerem-se à fuga a pé, por montanhas, na escuridão da noite, até à Turquia, iniciando uma longa e dura viagem a caminho da Europa. “Não tínhamos outra escolha. Era tentar uma vida nova ou morrer”, diz Ali. O “medo de morrer no mar” não os impediu de seguir e atravessar o Egeu num pequeno bote até à Grécia, após um mês na Turquia. Pagaram mais de 1300 dólares por cabeça – que já tinham desembolsado para sair da Síria, a 25 de agosto.

O medo e a desconfiança acompanharam-nos sempre: “Não conhecia ninguém, não confiava em ninguém”, diz Ali. Bateram Grécia, Macedónia, Sérvia, Croácia e Hungria de comboio, autocarro ou a pé, pela rota dos refugiados, até Viena, na Áustria. Foi aqui, na estação central, que o seu destino se cruzou com os portugueses da caravana “Famílias como as Nossas”. Encontraram em Nuno Félix a confiança e o reacender da esperança, que os trouxe até Portugal no início de outubro. “As preocupações com as filhas, por um futuro em segurança”, e as “dificuldades no caminho para a Alemanha”, onde Ali se juntaria a um irmão, foram decisivas.

A União de Freguesias de Ovar acolheu-os agora na terra vareira e toda a comunidade se mobilizou para ajudar. “Tínhamos já tudo pronto, casa, emprego, apoios, e eles estavam numa residência emprestada, em S. Martinho do Porto, sem perspetivas de trabalho”, explica o presidente da Junta, Bruno Oliveira, que se antecipou à distribuição dos refugiados pela Plataforma de Apoio aos Refugiados. A família síria já começou a ter aulas de português em casa, para que, em dezembro, Ali comece a trabalhar numa fábrica próxima. Há toda uma equipa multidisciplinar de voluntários a ajudar à sua integração em Ovar. “Na Síria, tínhamos uma família pequena, aqui temos uma família grande”, diz Ali. Não esquece Paris. Nem Raqqa. E espera um entendimento político internacional para a Síria. “Estamos muito tristes pelos atentados. Todas as religiões querem paz e nós, muçulmanos, também. Acreditamos na paz e no amor”.

Milene Marques

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