“Quantos anos pode uma pessoa viver sem futuro?”

Christos Tolis/UNHCR
Christos Tolis/UNHCR

“No dia em que saímos, chorámos, chorámos, mas sabíamos que não podíamos continuar no Afeganistão”, relembra Aziz, cujo nome foi alterado para que pudesse contar a sua história sem sofrer represálias. Quando tinha apenas 10 anos, os seus olhos viram os do seu pai a fecharem-se, a morrer, pelas mãos de outros.

Soube, nessa altura, que tinha de sair dali.

Aziz e o irmão dirigiram-se para o Irão. “Vivemos no Irão durante três anos, sem papéis, sem dinheiro e a sofrer de muito racismo” ao mesmo tempo. Aquele ainda não era o país a que poderiam chamar de “casa”. Com a ajuda do irmão, Aziz rumou em direção a um país europeu.

“Atravessei o mar até à ilha de Lesvos, na Grécia, e depois fui até Atenas. Durante a viagem perdi o meu objeto mais precioso: o anel do meu pai, que era a única coisa que tinha que me lembrasse dele”.

Lá, segundo o irmão, as coisas iriam ser “melhores”. Não foram.

“Tenho 23 anos e vivo na Grécia há sete. Vejo a minha vida piorar a cada dia que passa. Quantos anos pode uma pessoa viver sem futuro? Pedi asilo em 2008 e nunca recebi qualquer notificação. Não tenho quaisquer papéis, casa ou trabalho. Tentei sair, mas sem sucesso. Já não espero mais nada. Os problemas fizeram com que perdesse a minha mente”, conta, em 2014, ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

A esperança ficou perdida, algures entre os países por onde passou. Conta que nada melhora. Agora, tenta constantemente deixar a Grécia e seguir para Itália, mas sem efeito. Depois de até já ter sido atacado no meio das ruas de Atenas, diz “não consigo ficar aqui mais tempo”.

“Quero ir para um local onde haja leis. Se eles me tivessem matado naquela noite [em que foi atacado] ninguém saberia”, desabafa.

Apesar de tudo, sente-se incapaz. Incapaz de ajudar quem queria, a mãe, que está doente e continua no Afeganistão. O irmão, por outro lado, está no Irão, sem hipóteses de auxiliar. Ao ver a família completamente dividida pelo mundo fora, diz que se a sua vida não estivesse em perigo no país natal, “voltaria num minuto”.
Fonte: UNHCR

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