Terra de espera(nças)

Um depoimento da voluntária Canelle Kraft, de 27 anos, que esteve na Grécia durante dois meses, em Eidomeni (perto da fronteira com a Macedónia) e no campo E1.5 de Pireu (porto de Atenas).

Primeiras horas na capital grega. O pouco que vi de Atenas até agora manda-me longe da tranquilidade lisboeta; as ruas do centro, perto do Acrópole, fervilham de gente nos cafés e restaurantes que pulam as pequenas ruas, lembrando alguns bairros populares e cosmopolitas de Paris.

Mas não estamos em Paris. Nem em Lisboa. Aqui não há como escapar à realidade. Não é só desligar a televisão, mudar de canal, ou virar a página do jornal. Os refugiados estão aqui, em campos, oficiais ou não; num hotel transformado numa casa de acolhimento; no porto, no mesmo cais onde diariamente atracam os ferrys. No metro. Nos hospitais.

Aqui tudo é inequívoco. Real. Nem está próximo, está aqui.

Evidências

Viver certas coisas, sentir na pele… não é como ver nas notícias ou simplesmente saber, imaginar. Todos os que trabalham em organizações ou com algum cargo tendo impacto sobre a vida dessas pessoas, haviam de estar aqui algum tempo. Não estou a falar de uma visita de umas horas com câmaras para apanhar “A” frase e “O” aperto de mão, senão de viver esta realidade em concreto. Pois… nada iguala o sentimento que te entranha quando distribuis comida a 1500 pessoas e que não há para toda a gente. Estão 35-40ºC, tens de olhar as pessoas nos olhos, os teus novos amigos, e pronunciar: “já não sobra comida para vocês…”, “já não temos água” a essas mesmas pessoas, que esperaram horas ao sol. Às vezes, tem-se que privilegiar as filas das mulheres e crianças sobre as dos homens, embora queiras ser neutro e dar a todos.

Sentes-te mal, sentes-te culpado, alguns às vezes até te culpam. É normal, eles sabem que dás o teu melhor, que estás aqui para os ajudar e que não ganhas nada com isso (sim, humanidade e amigos, mas nenhuma retribuição financeira ou material), porque és independente e que pagas do teu bolso para estar aqui e ajudar. Defendes os seus direitos; ouves as histórias; brincas com as crianças; ensinas inglês; levas pessoas ao hospital no meio da noite e passas longas horas ao lado do seu filho que não puderam acompanhar, não podendo os pais sair do porto por falta dum carimbo num bocado de papel. És a única pessoa que eles têm à frente para desabafar, manifestar, verbalizar as suas frustrações, embora todos saibam que os responsáveis desta situação são os que alimentam as guerras e têm poder para mudar o destino das pessoas aqui.

As notícias que nos chegam parecem-nos mais perto. O quotidiano dos bombardeamentos em Alepo estão aqui ao pé, connosco. Uma amiga voluntária recebe no seu telemóvel, de contactos na Síria, vídeos de ataques, em direto. Ligam para Mohammed: a sua irmã de seis anos acaba de morrer, debaixo duma bomba. Um sms: 70 pessoas morreram num campo na fronteira com a Turquia. Pois. É a guerra, sentimos o quanto real ela é e do que as pessoas fogem. E logo aqui, continua o desespero.

Penam por misturar-se com uma população com a qual mal conseguem comunicar devido à barreira linguística. Tentam adaptar-se a uma sociedade que lhes dificulta cada passo pelas burocracias em si, e pelo desconhecimento das mesmas. E esperam, meses, sem informações, com o que lhe resta de esperança.

Uma Grécia sobrecarregada que se solidariza

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Os gregos são generosos e todos temos a aprender dum povo que demonstra tanta solidaridade apesar da difícil situação económica em que o próprio país se encontra.

Conheci um casal grego, que cozinha há dois anos, todos os dias, durante 3-5 horas, depois do trabalho, para mais de 1300 pessoas, sem abrigos ou refugiados. Hoje fizeram o jantar para as 1500 pessoas presentes no nosso campo. Com vontade (e coração), cada um pode fazer a diferença, mudar o mundo à sua volta, ou seja, o mundo de muitas pessoas.

Mas se a maioria da população parece-me bastante compassiva com os refugiados, por parte do governo e das autoridades, ainda há muito a fazer, e as condições nas quais se mantêm os refugiados que chegam é lamentável.

Fogem da guerra para aterrar numa prisão (Lesbos), ficar a sete pessoas numa tenda feita para três num terreno alagadiço (Eidomeni), esperar sem fim num camping menos cinco estrelas sem facilidades (Pireas), dormir literalmente na lama com recém-nascidos, não ter leite para o seu bebé, ter um aborto espontâneo porque distribuiram comida estragada (provocando uma intoxicação alimentar a centenas de pessoas numa só noite). Vejo as condições nas quais são deixados, e sinto vergonha de ser europeia. Tudo é feito para desmotivá-los, desencorajá-los a ficar e convencê-los de que, talvez, as bombas sejam preferíveis a esse tratamento sem dignididade. Quando alguns, cansados e fartos de esperar “assim”, optam por um retorno “voluntário”, é como se recebesse um murro no estômago. Sinto-me tão impotente de não poder ajudar mais, de terem ficado tão esmorecidos e desapontados com o nosso acolhimento pouco acolhedor que preferem voltar a arriscar a sua vida, do que viver esta humiliação por mais tempo.

E a Europa ainda se permite fazer diferenciações mortais.

Os refugiados que chegaram à Europa ilegalmente depois do dia 20 de Março são “candidatos” a uma deportação para a Turquia. País onde há poucos dias uns guarda-fronteiras mataram refugiados, incluindo crianças. Temos que deixar de ser hipócritos. A guerra não parou a 20 de Março, o desespero tampouco. Determinar uma data para aceitar ou não pessoas nessas circustâncias é fazer uma diferenciação criminal, que pode ter (e tem) consequências mortais, além da falta de consideração pelo que elas viveram.

Além disso, os sírios têm mais possibilidades de conseguir o asilo do que os afghanis. Por isso, mais vale seres vítima de perseguição política na Síria do que no Afeganistão. E essa discriminação injusta vai além do “oficial”, sendo os afghanis que tentam atravessar a fronteira com a Macedónia mais frequentemente vítimas do que os sírios, de maus tratos por parte das autoridades que os apanham.

Tentar passar ou não tentar

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Como quase tudo hoje em dia, ajudar pessoas a passar uma fronteira é um negócio, e os custos são humanos. Não basta dizer que é preciso lutar contra o tráfico humano, porque enquanto houver guerra, as pessoas vão continuar a fugir, pela sua segurança e a dos seus filhos. E enquanto elas enfrentarem dificuldades legais para chegar a um lugar seguro, vão continuar a usar outros meios, funestos. Ao fechar as suas fronteiras, os países europeus fogem às suas responsabilidades, descredibilizam a imagem duma União como potência normativa e só favorecem os circuitos de crime organizado, criando assim mais insegurança humana.

Os que decidem “viajar” são os mais sortudos, tendo um pouco de dinheiro ou a ajuda de amigos ou familiares para comprar a sua esperança. Gastam tudo numa viagem incerta, insegura, cheia de perigos, roçando a morte, e muitos a encontram mesmo… Eles contaram-me essas “viagens”.

Perseguidos, empreendem uma longa caminhada pelo deserto, andando durante dias para sair do Afeganistão, da Síria e logo na Turquia, tendo que pagar a cada encontro com autoridades para essas fecharem os olhos e não os denunciarem a um regime que está de conivência com Bashar al-Assad.

Muitos ficam alguns meses na Turquia para trabalhar (ilegalmente). Ruhullah, 22 anos, licenciado em jornalismo, trabalhou numa loja de flores. Idris, 26 anos, esteve uns meses nessas fábricas onde usam pedras para clarear os jeans. Flash-back: estou numa aula de história do 11º ano, vemos um documentário sobre o processo de fabrico das calças de ganga. Nunca me esqueci do pormenor das “pedras da Turquia”, e agora tenho essa realidade à minha frente. Fala-me da dureza do trabalho, dos químicos, das doenças que esses provocam.

E aí então têm os barcos.

Uma vez o dinheiro na mão, alguns traficantes pouco se preocupam do destino dos seus “clientes”. M. teve a sorte de não morrer a primeira vez que tentou atravessar quando o traficante os empurrou a todos num barco demasiado pequeno para o número de pessoas que eram, abandonando-os à sua sorte, sozinhos no mar. 20 crianças. 45 adultos. O motor pára. Lançam as malas ao mar. Um buraco. Começam a apanhar a água que entra pelo fundo da embarcação com a roupa que levam no corpo, como quem tenta enxugar a sua roupa lavada à mão, lutando aqui pela sua vida. Um barco da polícia costeira salvou-lhes a vida. I. diz-se infinamente grato por isso, e sinto todo esse reconhecimento diretamente nos seus olhos e na sua voz. Trabalhar mais. Apanhar outro barco, com outro traficante. Chegar à Grécia.

Estão aqui. À espera, sem condições, sem nada para ocupar o seu dia, de algo que não acontece. Não têm nada, e dão tudo.

As famílias convidam-nos para as suas tendas, não têm o suficiente para eles e dividem com os seus vizinhos de tenda e com os voluntários o pouco que (não) têm.

São as pessoas mais hospitaleiras que conheço. Sinto-me profundamentemente honrada pelo convite, pela confiança e pela oportunidade de descobrir um pouco mais da sua cultura e de passar um momento com eles na intimidade da sua tenda, embora incomodada por ter a impressão de estar a privá-los desse pouco que usufruem. Nedal ainda acaba de me dizer que não tem comida para os seus nove filhos, nem leite para o seu bebé de dois meses que tenho nos braços, e convida-me a partilhar dois pepinos e três tomates cortados à maneira dos restaurantes gourmet. Recuso educadamente, insistem. Sento-me no meio deles, como quem se senta num banquete organizado para si, e provo essa comida tradicional que têm tanto orgulho em compartilhar comigo. Saboreo cada bocado, mastigando o mais lentamente possível, tentando comer o mínimo, sem deixá-los suspeitar o meu subterfúgio para ficarem com mais.

“Meu amigo”

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Nunca senti tanto amor, tanta humanidade, tanta espontaneidade, tanto calor humano. Crianças que não te conhecem, saltam-te nos braços, abraçam-te, não te largam… Os sorrisos e os abraços marcam o ritmo dos dias. Falo inglês, fala farsi, fala árabe não nos percebemos sempre, mas rimos na mesma. É a beleza disso tudo.

Sinto-me integrada, e desintegrada… Integrar não será a melhor palavra, porque aqui é tudo tão óbivo, tão natural, logo. Estamos todos no mesmo barco, e em barcos diferentes ao mesmo tempo, como se houvesse uma ubiquidade invisível.

Estamos cansados. Custa-me adormecer a noite, há pouco tempo para processar tudo. As lágrimas vêm-me regularmente aos olhos, mas aguentas porque ainda não é o momento de largar tudo, e porque te sentes culpado de chorar abertamente quando eles, apesar de tudo, riem e sorriem-te, secam as tuas lágrimas e cuidam de ti.

Somos voluntários independentes, afiliados a nenhuma ONG, nenhum governo. Partilhamos a mesma comida (a que ninguém chamaria assim), as mesmas duchas frias (em todos os sentidos), as mesmas casas de banho inundadas, os mesmos cobertores do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) no chão frio da Stonehouse[1], as mesmas tendas que ardem no asfalto. As picadas de insetos. As limitações linguísticas com o grego, com a língua do outro – que já não é “outro” e ainda menos um estrangeiro, mas sim o nosso amigo, o nosso irmão. As mesmas frustrações. As insónias.

Vão-te contando a sua história, criam uma relação mais próxima contigo, e vem o dia em que um te confia que vai fazer apelo a um traficante para atravessar a fronteira, mudar de país… Sabes que há tráfico humano, que podem ser enganados, apanhados, detidos, espancados por polícias (ouviste relatos dos que voltaram da Macedonia, de ossos partidos…). Não lhes podes criar expectativas, nem quebrar a sua esperança, sendo consciente de que para muitos é a sua única hipótese de tentar safar-se do inferno e da interminável espera… Podem ter que dar até 3000 euros cada pessoa, por um passaporte e uma rota de saída da Grécia. Quem é apanhado volta ao ponto de “partida”, já sem dinheiro e com cadastro.

Na parte mais difícil quando crias laços com as pessoas, é imaginar que não sabes do seu futuro, que podes nunca mais vir a saber deles. Não é como se tiverem uma vida sem sombras. Custa. Encontras pessoas desesperadas, acompanhas-nas, vives com elas e depois… tudo pode acontecer. É impossível manter a distância quando estás aqui (e ainda bem, passarias ao lado do que há de mais verdadeiro e lindo do mundo).

Os dias passam ao som dos “my friend”, nome universal pelo qual nos chamamos, e das músicas tradicionais que saem das tendas à noite. Essa música… um universo que nos transporta para a sua cultura, o seu país, a sua vida, as suas memórias. Um telemóvel e um altifalante reúnem-nos no cais, cantando e dançando como numa festa em Cabul ou Damasco.

De repente, já não existem nem sírios, nem afghanis, nem europeus, nem refugiados nem voluntários: apenas uma grande família, seres humanos projetados longe das guerras e dos problemas, isolados, abraçando o mundo. Felicidade em estado puro.

Voltei de coração cheio, com verdadeiros amigos para toda a vida. Sinto-me mais livre do que nunca, com a certeza de que conseguiria passar por seja o que for; lisonjeada por ter tido a oportunidade de conhecer essas magníficas pessoas, ter vivido com elas e partilhado o mesmo quotidiano. Sei que fomos úteis, e que um simples sorriso, um ouvido atento já fazem a diferença. Criei mais relações de amizade em poucas semanas do que em vários anos, com pessoas com quem nem falo a mesma língua. Mas não há barreira no coração. Demos tudo e estaremos presentes a velar uns pelos outros até o fim. Continuamos em contacto, partilhamos as saudades e a ajuda vai além da minha presença lá.

Cidadãos do mundo

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“Sei onde foste. Foste para o fim da Europa” disse-me um miúdo a quem faço baby-sitting em Portugal. Sim, fui para os limites da Europa, mas ainda Europa. Esta crise humana acontece aqui: não é do outro lado do mundo (e mesmo se fosse…), não é longínqua nem às nossas fronteiras mas, sim, dentro desse espaço comum construído sobre a paz. A mesma União que recusa a entrada da Turquia por questões de direitos humanos, mas que celebrou um acordo com essa mesma nação, para mandar de volta estas pessoas desesperadas. Os próprios refugiados sentem-se de fora, partilhando as suas esperanças de poder “ir para a Europa”, embora “já” estejam na Grécia.

Um passaporte. É tudo o que nos diferencia aos olhos das autoridades e uma mera (e havia de ser fútil) questão de nacionalidade chega para fazer com que o meu me permita viajar onde eu quiser, quando o deles os deixa na fronteira. Ironia da História: são eles que se escapam dum país em guerra, de perseguições: da violência a todos os níveis. São eles os traumatizados. Fugindo da morte, enfrentam-na durante uma viagem que os leva onde são tratados como números indesejáveis.

Não se trata de “desejar” ou não. Aliás, lembrem-se que eles nunca quiseram fugir do seu país deixando família, amigos e raízes para trás. Trata-se de sermos humanos e solidários.

A Europa abandona a Grécia à sua geografia, fechando não só a porta aos refugiados como os olhos sobre uma situação pela qual é em muito responsáv

[1] Nome dado ao armazém em E1.5 no porto de Pireas, abrigando refugiados, voluntários, stocks de comida e roupa.

Um pensamento em “Terra de espera(nças)

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