“Tive de mentir a toda a gente para sobreviver, até à minha mulher”

Haider com a mulher, Nadia, e as duas filhas - Refugee Action
Haider com a mulher, Nadia, e as duas filhas – Refugee Action

Haider é, antes de tudo, um artista. Mas, no Iraque devastado pela guerra, a arte não paga as contas. Assim, aprendeu inglês com o pai que é professor de línguas e começou a trabalhar como intérprete.

Haider morava em Basra, no sul do Iraque. Os primeiros trabalhos que fez depois de se formar eram contratos a curto prazo com empresas britânicas de segurança . “Não havia nenhum risco nessa altura. Naqueles dias, era tranquilo no sul”, contou.

A vida dele mudou quando a situação de segurança piorou. No trabalho, a sua equipa foi atacada por um carro-bomba. Um colega telefonou à mãe de Haider a informar que o filho estava seguro, mas ela não fazia ideia que aquele trabalho era perigoso. “Ela começou a chorar e a gritar”, disse Haider. “Quando voltei a casa, ela obrigou-me a abandonar o emprego”.

Depois de meses sem trabalhar, Haider retomou a interpretação. Desta vez, foi contratado pelas forças militares britânicas e disse à família que estava a ensinar arte. E ainda bem que foi cauteloso, pois rapidamente encontrou-se sobe ameaça. “Os militantes declararam que qualquer iraquiano que colaborasse com o exército britânico deveria ser morto – não apenas impedido de trabalhar – morto.”

A partir daí, os ataques aos intérpretes tornaram-se banais. “Perdi tantos amigos…”, coutou Haider. Uma vez, dezassete colegas seus, que regressavam juntos de uma base do exército para as suas casas, foram sequestrados e executados. Por mero acaso, Haider não se encontrava com o grupo, nesse dia, e escondeu-se. Como precisava de sustento, acabou por regressar rapidamente ao trabalho.

Entretanto, a vida foi avançando. Haider conheceu Nadia, a rapariga com quem queria casar. Mas ele não podia ser completamente sincero com ela, não lhe podia dizer qual era o seu trabalho. “Se os pais dela soubessem que era um intérprete, não teriam aceitado o nosso casamento”, explicou. “Eles teriam recusado, dizendo que seria morto muito em breve”. Haider e Nadia casaram-se no auge do conflito.

A vida de Haider tornou-se mais difícil. Mudava todos os dias o caminho para o trabalho, tinha de se esconder frequentemente, contava histórias diferentes a pessoas diferentes. Mesmo Nadia, a esposa, pensava que a maioria das viagens em trabalho eram para ele ensinar arte. “Contei mentiras para sobreviver”, garantiu. “Mesmo na base britânica não contei a muita gente que era intérprete. Dizia-lhes que era um artista, apenas um artista.”

A situação de segurança do Iraque ditou a vida da família de Haider. Quando as coisas eram violentas, a vida era incrivelmente tensa. Às vezes torna-se mais tranquila. Entretanto, a família cresceu: o casal teve duas filhas. Nos piores momentos, estavam sempre em movimento, ora fora, ora dentro do esconderijo. “Foi muito duro, muito cansativo”, lembrou Nadia.

Em 2010, o casal decidiu que os perigos que a família enfrentava eram grandes demais. Inscreveram-se num programa do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados para intérpretes iraquianos, onde muitos dos quais também tinham encontrado as vidas ameaçadas devido ao trabalho.

Dois anos depois, ofereceram-lhes finalmente uma nova casa no Reino Unido. Chegaram através de um programa de proteção e foram recebidos, no aeroporto, pelo pessoal da organização “Refugee Action”, que também os apoio durante o primeiro ano após a chegada ao Reino Unido.

Não foi fácil mudar de país. A família estava de coração partido por deixar para trás pessoas que amam. “É difícil mudar de país, viver num sítio onde nunca se esteve antes”, contou Haider. No entanto, está convencido que esta mudança salvou as vidas da sua família, que tem agora, finalmente, a oportunidade de sentir-se segura e assente. “Estou muito grato à Grã-Bretanha”, disse Haider. “Gostava muito do meu trabalho no Iraque, mas tive de pensar na minha família.”

Fonte: Refugee Action

 

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